Imagem capa - Buquês, véus e outras histórias por Madeira Filmes
Reflexões Madeira

Buquês, véus e outras histórias

Você já parou pra pensar nas tradições do casamento e por quê elas perduram?

O mundo dos casamentos se renova a cada ano. As tradições, por outro lado, não. É isso que as caracteriza como tradições, afinal; mas alguns significados importantes ficam pelo caminho nessa reprodução cega e desenfreada através do tempo. 


Falamos aqui sobre casamentos ocidentais, que receberam heranças culturais majoritariamente europeias. O buquê da noiva e a lapela do noivo são exemplos precisos: começaram a ser usados na Idade Média para encobrir o mal cheiro dos noivos com o perfume das flores. E por quê o buquê não é preso à roupa da noiva, como a lapela do noivo? Para manter suas mãos ocupadas e em uma posição de modéstia. Isso pode não fazer tanto sentido agora. Prossigamos. 


O vestido tradicional da noiva segue uma linha barroca / rococó, com espartilhos, mil enchimentos e uma cauda ou véu. Já naquela época, além da suntuosidade, todas essas saias, anquinhas e partes que se arrastavam tinham um fim muito específico: tornar a mulher lenta. Isso tornava a fuga do casamento arranjado impossível, assim como escapadelas no salão de baile. A estratégia era arrematada com a entrada do pai de braços dados com a noiva, assegurando que ela seria entregue ao noivo como acordado. 


O próprio vestido branco nasceu com um simbolismo muito diferente. Começou com a rainha Vitória, lá em 1840, quando ainda se casava com tecidos vermelhos, roxos ou de outras cores de tingimento mais caro, para mostrar poder e recursos. A então princesa abriu mão do luxo, casando-se com tecidos brancos simples para mostrar que se casava por amor, não por possesClaro: como qualquer linguagem, os símbolos são ressignificados conforme seu uso. O vestido branco, agregado pelas instituições religiosas, passou a ser um símbolo de pureza e castidade. Em um dado momento não tão distante assim, só poderiam se casar de branco as meninas virgens em seu primeiro casamento. Viúvas e mulheres mais velhas, mesmo que nunca casadas, deveriam optar por outras cores em tons claros. A poética do casar de branco por amor se perdeu, dando lugar a uma legenda social ditada pela cor. Hoje, 2021, já com esse sistema colorista enfraquecido, mães ainda desfalecem ao ver suas filhas e netas em um vestido que se esquiva do branco e pérola. 


Pois é. 


Hoje ninguém mais quer fugir do altar (ou assim acreditamos); a noiva não precisa se arrastar pelo chão e nem ter as mãos ocupadas. A precificação dos tecidos já não depende do tingimento. O que é que nos obriga, então, a esses simbolismos que já não nos dizem muito? 


Cerimônias de casamento são orações ao que vocês, como casal, são e almejam ser. Cada passo, cada gesto, cada cor, deve ter sentido para vocês e para os seus. A entrada, a disposição dos assentos, o cronograma do evento, a música e a comida, votos, discursos e objetos. As tradições que valem a pena manter - e da maneira que melhor se enquadram dentro da sua essência - são as que falam sobre quem vocês são e de onde vieram. Use e faça como quiser, quando quiser, onde quiser. Mas, antes de tudo, tenha o mais importante: o porquê.